Crítica

“O BALANÇO É A OSCILAÇÃO QUE FAZ CABER OS EXPLORADOS”

Por Anna Moreira

Assim que iniciei a minha leitura de “CAFÉ frio também ferve” pude sentir a potência do texto, pois trata de um assunto tão brasileiro que logo me vi segurando um bilhete de trem. A viagem já estava em curso, havia movimento naquelas páginas onde caminhava a representatividade de muitas histórias de mulheres negras do Rio de Janeiro, e de muitas outras mulheres de diferentes partes do Brasil.

Conduzida pelo movimento da narrativa, e pela construção da imagem de um enorme aperto [que todx trabalhador precário da periferia carioca conhece], fui muito bem acolhida e pude enxergar fragmentos da minha própria vida em cada frase, os quais auxiliaram na construção de uma relação muito mais aprofundada e de pertencimento ao mundo dessas três trabalhadoras domésticas. Aliás, não apenas a minha experiência, mas também as histórias de centenas de Carlas, Janetes e Luízas que conheço. Afinal, os ramais da malha ferroviária fluminense atravessam a minha história há algumas gerações –– o trem é o meio de transporte onde poderia ser contada a minha história, os meus caminhos, desde minhas ancestrais, desde as raízes negras que me entreteceram; o trem é um ponto de encontro do trabalhador mais vulnerável do Rio de Janeiro, é parte significativa da base dessa pirâmide desigual.

As relações com o trabalho estão firmadas em quê? Enquadraram o trabalho contemporâneo no Brasil numa moldura onde parece bela a relação de sorte entre empregador e ajudante. Com as discussões sobre o mal que habita o mundo atualmente, é possível observar que o trabalho tornou-se mais importante que a própria vida. Será que a escravidão acabou, ou ela sofreu mudanças genéticas pelo capital desde 1500? Não parece escravidão, uma pessoa ter que ir limpar a casa da patroa porque não há seguridade social que possa manter a própria vida a salvo dentro de casa? “Café” é sobre uma ordem de destruição gigantesca e estrutural que existe entre nós, é um texto que dá a ver as características de um Brasil profundo e que foi tornado invisível.