O Capivara nasceu de uma longa trajetória de pesquisa, inspirada em estudos de movimentos artísticos originários do Brasil, durante um curso da disciplina ‘Formação do Teatro Brasileiro’, sob a docência do professor e amigo Dr. André Gardel.
Eu estava muito interessado por estudos epistemológicos da cena teatral contemporânea, havia (como ainda há) uma inquietação sobre as relações da cena com outras artes – a pintura, a dança, a performance, a própria literatura. ”Devorar” Ailton Krenak, aproximar-me do ensaios de Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha, e desenvolver sensibilidade mais aprofundada ao movimento tropicalista [às discussões sobre tornar-se onça, e compreender a voz das águas], fez com que eu entendesse a necessidade de um animal para firmar na terra esse sentido brasileiro – característica que nos é cara, pois os elementos da natureza são fundamentais em nossos processos de criação. Ali já estava “tudo certo, como dois e dois são cinco”!
Certo dia enquanto lia “Textos Tropicais” de Antonio Risério, olho para o jardim e vejo uma simpática e despreocupada capivara, deitada perto de um coelho, sobre ela dois canários, e retirando os carrapatos do seu corpo uma linda garça. Pensei: é isso! A Capivara é um animal que existe numa relação pacífica de acolhimento com outras espécies, e isto é próprio do teatro. O animal foi encontrado, temos um nome! Linguagem de chão e trabalho cênico continuado, investigando possíveis usos da palavra por meio de textos inéditos, desenvolvendo relações tensas e vibrantes com a literatura, liberando a dramaturgia das obrigações com o palco, tendo apenas o lugar da cena.
São tantas histórias, tantos momentos marcantes, e em 2025 completaremos 10 anos de muita vida, muito trabalho, e amor pela cena. O Capivara é um sonho sonhado a tantas mãos, a tantas parcerias. Nossa árvore trocará suas folhas mais uma vez, mas em nenhuma das vezes aconteceu da mesma maneira. E estou falando de árvores não por acaso. Em dezembro de 2019 nasceu o ‘Espaço Capivara – Agroecologia e Cultura Alimentar’, que é uma das realizações mais belas da nossa trajetória. É a consolidação relacional do nosso grupo com o território rural onde habitamos e criamos arte. Não somos artistas periféricos, somos artistas rurais. Conhecemos características de Brasil profundo [mesmo tratando de Rio de Janeiro]. Paracambi é a porta de entrada do Vale do Café, uma região estruturada por fazendas históricas, um território com vestígios e traços fortíssimos da escravização de povos. Lugar onde dores e violências são “apagadas” pelo sabor dos queijos e dos doces. O que configura um sono profundo, que recusamos, e ressoamos para despertar a cada proposição artística que sobre as quais debruçamos.
Entendemos nosso fazer teatral todas as vezes que criamos a seguinte imagem: o teatro é uma Kombi velha, sem rodas, sem motor, onde alguns loucos entram acreditando serem capazes de fazê-la movimentar! E por aqui, o que nos mantém dentro desta mesma Kombi é aquilo que chamamos “Dramaturgia”, porque são as histórias que nos movem, são elas que nos fazem olhar o que acontece fora daqui, é delas que vem a nossa noção de tempo e lugar. Quanto maior a sensação de que estamos indo ladeira abaixo, mais a gente se diverte! Dedicamos tempo em não responder às lógicas de um mundo adoecido.
– Thiago Cinqüine
